• Gabriela Braun

A forma como nascemos interfere na forma como vivemos?


“Não é possível falar de partos sem dirigir um olhar honesto ao que acontece em 99 por cento deles na sociedade ocidental. A maioria transcorre em uma instituição médica – clinica ou hospital -, em que ninguém acredita que valha a pena levar em conta as condições emocionais da parturiente. A assistência aos partos – da maneira como são vividos hoje em dia – foi dominada pelo pensamento funcional, e, nesse sentido, o pessoal assistente tem um único objetivo: extrair um bebê relativamente saudável. Não importa como, nem a que preço emocional (que lhes é invisível).” Laura Gutman A maternidade e o encontro com a própria sombra Antes de começar este texto, deixe-me esclarecer que não tenho intenção de exercer nenhum tipo de julgamento sobre as escolhas feitas por cada mulher na hora do seu parto. Entendo que essa é uma decisão muito particular de cada uma e que não existe certo ou errado nessa hora, existe o que é adequado para cada situação. Não irei discutir aqui que tipo de parto é melhor – normal, natural ou cessaria. Quero discutir que tipo orientações as mães tiverem durante a gestação para que pudessem fazer a sua escolha. Se é que houve escolha. Por isso, antes que você inicie a leitura desse texto tenho um pedido a lhe fazer: deixe de lado qualquer informação que você já tenha sobre esse assunto e qualquer tipo de julgamento. Quando julgamos algo, dificilmente, levamos em conta todo o contexto da situação e isso pode nos tirar a oportunidade de aprender ou de criar empatia por alguém. Sendo assim, leia com o coração. Minha maior missão é, despretensiosamente, tentar fazer com que nós, mães, sejamos mais unidas e tenhamos menos o dedo apontado umas para as outras. Então vamos lá. Outra noite eu tive um sonho. Sonhei que eu assistia um parto em uma sala de hospital. A mãe estava deitada sobre uma maca, desacordada, enquanto a criança era tirada de dentro dela, enrolada em uma toalha e levada para longe da sua mãe. E como nos filmes, pude ver no sonho várias cenas da vida dessa criança... em muitas delas lutando com a sensação de abandono sem nunca entender o porquê. Eu não sei dizer se a criança foi criada pelos pais ou por outras pessoas, afinal, era apenas um sonho. Mas como, há algum tempo, tenho pesquisado sobre a relação da mãe com os filhos, tendo a acreditar que essa sensação de abandono pode ter sido gerada no momento do parto, quando ela foi levada para longe da sua mãe. Isso quer dizer que todas crianças que são levadas para longe da sua mãe quando nascem crescerão com essa sensação? NÃO! Isso depende também das vivências que ela terá na infância. Mas o que eu quero contar para vocês, é que esse sonho me fez lembrar do parto do meu filho. Antes mesmo de engravidar eu decidi que teria um parto normal. Por quê? Porque eu acreditava que essa era a melhor decisão para o bebê e para minha recuperação. Havia lido algumas coisas sobre a rapidez da recuperação no parto normal e sobre o leite materno “descer” mais rapidamente. Durante a gestação tive alguns agravantes que não me permitiam ter certeza se eu poderia parir através do parto normal. Somente no sétimo mês eu tive a resposta que estava tudo bem e que poderia ter o parto que escolhi. Bem nesse período tive que mudar de obstetra e, esse talvez tenha sido um presente na minha caminhada. A minha nova obstetra, desde a primeira consulta, me disse que o melhor era sempre esperar pela hora do bebê. A hora que ele estivesse pronto avisaria. E que se a minha opção era o parto normal, assim seria. Só que nessa época eu comecei a ler vários depoimentos sobre partos e sobre a dor das contrações. E toda minha vontade de parto normal foi posta à prova. A cada consulta eu fazia perguntas sobre o parto esperando, de alguma forma, que a médica me dissesse que eu não tinha condições de um parto normal. Porque quando o médico te diz que você não pode parir dessa forma, você acredita e segue a orientação de quem está ali para fazer o melhor por você e o bebê. Mas a resposta da minha obstetra era sempre a mesma: o ideal é esperar pelo tempo do bebê. Isso me colocava em uma encruzilhada. De um lado a escolha que eu já havia feito há tempos atrás; de outro o medo e a possibilidade de mudar. Você já se sentiu assim? Querendo provar para todos que tem coragem e ao mesmo tempo com vontade de se esconder no primeiro armário que aparecesse? Era assim que eu me sentia. Porque eu acreditava que precisava provar para todos que o parto normal era o caminho certo. Certo para quem mesmo? Para quem eu estava olhando quando tomei essa decisão? Com quem a médica estava preocupada quando indicou o melhor parto? E, foram essas perguntas que eu não fiz antes de parir. Eu apenas queria ser mãe. E, sem julgamentos, essa é a percepção que tenho da grande maioria das mulheres que desejam ser mães. Porque hoje, vivemos em um mundo dicotômico: de um lado estão aqueles que estão certos, do outro estão aqueles que estão errados. Então, se eu acredito que o parto normal seja o mais adequado, coloco em um saco todas as outras escolhas que diferem da minha. Essa dicotomia precisa acabar quando estamos falando de maternidade. Não existe um manual que nos ensina o passo a passo de como sermos mães. Às vezes, aquilo que funciona com uma mãe não funciona com outra. Por isso, insisto que temos sim, o mais adequado em cada situação, em cada família, em cada vivência, em cada corpo. Com cerca de oito meses fui atrás de uma pediatra que pudesse acompanhar o meu parto. Na época, meu único objetivo era parir o mais rápido possível e me tornar logo mãe (em outro momento conto a vocês a minha jornada até o dia em que engravidei). Por isso, quando a pediatra me disse que a sua linha de trabalho era atender a criança logo que ela nascesse e, somente depois, o bebê seria entregue à mãe, fiquei tranquila. Lembro como se fosse hoje. Cada detalhe da sala do seu consultório, quando disse à pediatra que por mim estava tudo ótimo. Que, na verdade, eu gostaria mesmo é que me entregassem o meu filho quando ele já estivesse limpo e cheiroso. Então, o grande dia chegou. Minha bolsa rompeu, como nos filmes, durante uma aula de pilates. Sem nenhuma dor, tudo parecia correr muito bem. Quando liguei para a obstetra, ela me orientou que eu fosse logo para o hospital. Como eu estava sem dor, bem tranquila, ainda fui em casa, tomei um banho e peguei a malinha da maternidade. Eu não acreditava no que estava vivendo. Um parto sem dor! Foi quando, uma hora após o rompimento da bolsa, veio a primeira contração. Nesse momento, eu compreendi o que estava por vir. A dor era tão intensa que a única coisa que eu conseguia pensar era que não iria suportar. No hospital, fizeram os procedimentos padrões... deitei numa cama com vários eletrodos e fios conectados na minha barriga que monitoravam minhas contrações e os batimentos cardíacos do bebê. Somente depois de uma hora meu marido pode entrar no quarto comigo. Quando a obstetra chegou, cerca de uma hora depois que eu já estava no hospital, minhas primeiras palavras foram: pode me abrir, não quero mais parto normal. A dor era demais para mim. E ela, com todo amor do mundo e com uma suavidade me disse que tudo iria dar certo. Que após a anestesia peridural eu ficaria mais tranquila. E foi verdade. Após a anestesia, eu sentia tudo, menos a dor. Novamente entrei em um estado de tranquilidade, acreditando que tudo transcorreria de forma simples e fácil. Até que cheguei na dilatação total e o efeito da anestesia passou. Nessa hora, fui informada pela obstetra que não poderia mais ter a anestesia, caso contrário não teria forças para expulsar meu filho. Ok, falei para mim mesma, agora vai ser fácil, só uma forcinha e tudo resolvido. Desse momento até o nascimento transcorreram uma hora e quinze minutos. Com muito medo, muita vontade de desistir de tudo, ir embora e desistir dessa ideia maluca de ser mãe. Meu filho então nasceu. Sob as imensas luzes dos refletores da sala de parto. Logo que saiu de dentro de mim teve o cordão umbilical cortado e foi levado para que fossem realizados os procedimentos médicos de rotina. E eu? Só conseguia estar agradecida por aquilo tudo ter terminado. Já enrolado em alguns panos, meu bebê foi trazido para perto do meu rosto para que eu pudesse vê-lo e, de longe, me consagrar mãe. E quando olhei para ele, a única coisa que eu conseguia pensar era que eu estava grata por ele, finalmente ter saído de dentro de mim. E assim, ele foi levado para o espetáculo do banho em uma sala cheia de espectadores que esperavam ansiosos por conhecer mais um membro da família. Dizem que quando nos tornamos mães as nossas vontades são postas de lado e apenas os desejos do bebê passam a importar. Naquela mesa de parto, com o meu filho longe de mim, recebi a atenção e carinho da minha médica, a quem serei eternamente grata pela forma como me acolheu naquele dia. Sem ela, eu com certeza teria desistido. Rafael recebeu os aplausos da família, por trás de um vidro, nas mãos de uma enfermeira desconhecida que ele nunca, sequer havia escutado a voz. Fui então, levada para o quarto e, somente depois de algum tempo meu menino foi trazido e colocado sobre meu peito para mamar. Como eu me sentia? Completamente desnorteada, sem saber se estava feliz ou apavorada. Eu tinha medo de pega-lo e machuca-lo. Eu olhava para ele e não o enxergava. Não tínhamos a tão falada conexão mãe-filho. Como Rafael se sentia? Imaginem vocês... A maternidade, algum tempo depois do nascimento do Rafael, me transformou. Foi como se, por toda a minha vida, eu soubesse que seria mãe. E, tenho certeza, muitas mulheres se sentem dessa forma. Mas, tinha algo por trás de toda essa beleza e essa confusão que eu precisava entender melhor. E, foi por isso, que comecei essa jornada linda que é estudar sobre mães e filhos. Segundo Gutman, criamos guerreiros, pois isso é necessário para uma cultura de conquista. Esse é o principal motivo pelo qual as mães separam os filhos dos seus corpos. A cada ato de desamor, pequeno aos olhares dos adultos, mas imenso para um bebê, estamos gerando uma criança desamparada que precisará criar, com urgência, algum mecanismo para a sua sobrevivência (O que aconteceu na nossa infância e o que fizemos com isso – Gutman, Laura, 2017). As decisões que tomamos na infância dos nossos filhos refletirão nas suas vidas adultas, inclusive o seu nascimento. Se eu pudesse mudaria tantas coisas no parto do meu filho. Porque, hoje, entendo o desamparo que uma criança pode sentir ao ser tirada da sua mãe logo que nasce – entrando em um mundo desconhecido, com muitas luzes, vozes e falta de aconchego. Entendam que, essa é a forma como o parto passou a ter sentido para mim. Isso não quer dizer que faça sentido para você. Por isso, a minha maior ambição é que as mulheres tenham acesso à informação sobre qual a sua melhor forma de parir e que essa decisão possa vir da sua alma e não de um sistema instituído na sociedade onde somos apenas coadjuvantes que vamos seguindo a correnteza, sem saber direito para onde ela vai nos levar. No final, se não sabemos onde queremos chegar, qualquer caminho serve. Sempre há tempo para mudar, se você quiser. Conhecer os caminhos que podemos seguir é o primeiro passo.


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