• Gabriela Braun

Criança pode falar palavrão?

Quando meu filho tinha três anos de idade eu recebi um bilhete gigante da escola dele. Na verdade não era um bilhete, era uma carta do tamanho de uma folha A4 que veio dobrada dentro da agenda. Lembro como se fosse hoje a cara de assustado que ele fez quando chegamos em casa e eu peguei a agenda para olhar.Vi a carta então, sentei e comecei a ler. Enquanto isso, ele assistia televisão no sofá. Terminei de ler, olhei para ele e iniciei o seguinte dialogo:

Eu: Rafa, desliga um pouquinho a televisão para conversar com a mamãe.

Rafa: Tá bem ... (ele sabia que era importante e desligou sem questionar, o que não costumava ser normal).

Eu: A profe enviou um bilhete falando que você chamou o colega de filho da.... na escola hoje. Quer me contar o que aconteceu?

Rafa: Eu não falei nada mamãe.

Eu: Entendi que você esta com medo que a mamãe brigue com você. A profe brigou com você e agora você esta assustado porque acha que a mamãe vai fazer o mesmo, é isso?

Rafa: ... silêncio, apenas sacudindo a cabeça afirmativamente, olhando para baixo.

Eu: Você entendeu por que a profe ficou brava com você? Essa palavra que você usou para chamar o colega é muito feia. Nós não a falamos aqui em casa porque ela não é respeitosa. Você já ouviu alguém falar essa expressão?

Rafa: A vovó fala...

Eu: Entendi. Às vezes a vovó fica brava e fala mesmo, mas ainda assim, ela não é respeitosa e por isso não devemos falar esta certo?

Rafa: É palavrão?

Eu: Sim, um palavrão.

Rafa: Não posso falar nenhum palavrão?

Eu: Não é legal filho.



E assim, encerramos o nosso dialogo naquele dia. O bilhete da professora dizia que havia conversado com o Rafa e dito a ele que a mãe e o pai iriam explicar para ele a origem do palavrão que ele usou. Fiquei pensando sobre isso e não vi sentido em explicar a origem de uma palavra agressiva para uma criança tão pequena, que estava simplesmente reproduzindo algo que ouviu. Porque é isso que as crianças fazem, reproduzem aquilo que ouvem e veem. Por isso, quando atuamos como educadores, precisamos prestar muito mais atenção no que fazemos do que naquilo que dizemos, pois é para isso que as crianças olham. Se digo a elas que falar palavrão é feio e sigo falando é incongruente. Veja bem, crianças não precisam de pais perfeitos, mas sim de pais que expressem congruência entre aquilo que falam e fazem.

Meu filho sempre foi, desde bem pequeno, aos jogos de futebol do time que ele e o pai torcem. Cresceu acostumado a ficar no estádio mais de 90 minutos assistindo os jogadores se movimentarem pelo campo. Em um desses jogos que ele foi com o pai, ele voltou com a seguinte indagação: “mamãe, por que falar palavrão é feio se a torcida fala?” Nesse momento, algo despertou dentro de mim. Nem todo palavrão é ruim. Muitas vezes, pode ser até libertador. Quantas vezes só o fato de você falar algo sozinha ou jogar palavras ao vento sobre uma situação que você viveu ou sobre alguma injustiça que presenciou e aí, ao falar o palavrão, parece que o sentimento de raiva ou angustia alivia? Fiquei pensando nisso. E achei que o questionamento do meu filho fazia sentido.

Então, para resolver essa situação, fizemos o seguinte acordo: em alguns lugares podíamos falar alguns palavrões, desde que não desrespeitasse nenhuma pessoa diretamente. Se falássemos algo que magoasse outra pessoa, deveríamos nos retratar e não repetir. Os lugares acordados foram: dentro de casa e nos estádios de futebol. Apenas alguns palavrões foram liberados, aqueles não se referiam diretamente a alguém, como por exemplo, “putz”.

Desse dia em diante, Rafael não reproduziu mais nenhum palavrão na escola. Algumas vezes, quando estamos em casa, ele me pergunta se tal palavra é palavrão. E se for, pergunta se podemos incluí-la na nossa lista de palavras que podem ser ditas em casa. Ele tinha 3 anos quando fizemos esse combinado. Hoje tem 5 e a combinação segue ativa. Por que funciona? Acredito que pelo fato de ter trazido para ele coerência. Por ter explicado que em alguns lugares podemos fazer algumas coisas e em outros não. As crianças entendem e colaboram com aquilo que faz sentido para elas.

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