• Gabriela Braun

Na dor do meu filho revisitei a minha. Abraçada nele, chorei.

Uma e meia da madrugada. Escuto os passos acelerados do Rafael pelo corredor, até chegar ao meu quarto. Com seu travesseiro na mão ele vem pedir para deitar em nossa cama, pelo terceiro dia consecutivo. Três noites dormindo mal, meu corpo já começava a reclamar, meu humor já dava sinais de que seriam necessárias muitas respirações profundas para acalmar a irritabilidade gerada pelo cansaço.


Ele chega e eu pergunto o que houve. “Sonho ruim, mamãe.” Filho, você tem que dormir na sua cama. Fica apertado nós 3 aqui, respondo sem muita paciência. “Não quero.” Eu te levo, fico um pouco contigo na tua cama. Meio contrariado, ele aceita. Vamos os dois. Deito ao seu lado, ele logo vai se entregando ao sono. Fico um pouco, me mexo para sair da cama, Rafael logo desperta. “Não quero ficar sozinho. Tenho sonho ruim sozinho.” Filho, precisamos encontrar um jeito para essa situação, estou muito cansada por dormir apertada. “Desculpe mamãe, eu quero muito te ajudar, mas to com muito medo.”


Em uma fração de segundos, meu coração acelerou e minha mente vagou. De repente, no escuro, fui invadida por uma memória minha, aos 5, 6 anos de idade, encolhida em minha cama, invadida por um medo inexplicável, sem conseguir dormir e sem coragem de contar para minha mãe que tinha medo de ficar sozinha. Uma memória esquecida, em algum lugar do inconsciente, reprimida como proteção para conseguir crescer e que agora veio com toda força, impulsionada pelo choro de culpa do meu filho.


Senti uma dor profunda no peito e as lágrimas surgiram. Lágrimas contidas que agora vinham com toda força para me mostrar que era preciso curar. Ali, sentada na cama do meu filho, todo cansaço se fora. Agora eu podia ver, com nitidez a dor dele. E a minha. Abracei Rafael, em silencio por alguns minutos, choramos os dois.



Ainda no escuro, falei pra ele: Filho, não sei como iremos resolver essa situação, mas sei que, nós dois juntos, vamos encontrar um jeito. Caminhamos os dois até minha cama, aninhei ele no meu travesseiro e respirei aliviada. Ele iria dormir tranquilo. E eu também. Rafael me ajudou a curar uma ferida da minha infância, com seu jeito leve, de menino autentico, que fala o que sente. E prometi para mim mesma que trataria o medo do meu filho com o respeito que ele merece.

Crianças tem o poder de nos fazer revisitar memórias esquecidas, medos que vivemos e fomos esquecendo. Lembrar da minha infância, naquele momento, me fez chorar. Um choro de cura, de alivio, de ressignificar. Rafael me mostra sempre que junto é melhor que sozinho. E que juntos, vamos encontrar um jeito, dele aprender a ficar sozinho, em paz.

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