• Gabriela Braun

Quanto tempo você consegue ficar longe do celular?


Outro dia, durante uma consulta oftalmológica, o medico me falava sobre os casos de mães que o procuram por conta das queixas dos seus filhos. As crianças reclamam de sentir um “corpo estranho” nos olhos. Chegam no consultório com os olhos vermelhos e irritados. Segundo o médico, esta é umas consequências do uso excessivo de smartphones, tablets e vídeo games. As crianças e adolescentes ficam horas com os olhos extremamente focados nas telas dos aparelhos, quase sem piscar, evitando assim a lubrificação natural dos olhos.

Quando escutei esse relato, fiquei bastante impactada. Primeiro, porque já fui a mãe que entregou o celular para o meu filho e esqueci de tirar, só para poder trabalhar ou ter alguns momentos de sossego. Segundo, porque me dei conta que, muitas vezes, as crianças apenas reproduzem os padrões de uma família inteira. E, nesse momento, a pergunta que surgiu em minha mente foi: quão anestesiados estamos quando educamos nossos filhos?

Por favor, não me entenda mal. Escrevo sobre isso porque os casos de adultos com dependência do aparelho e celular, depressão gerada pelo uso excessivo das redes sociais, insônia, problemas de coluna tem se tornado alarmantes.

Em uma pesquisa realizada pela empresa de estatísticas Statista (https://www.statista.com/chart/9539/smartphone-addiction-tightens-its-global-grip/) mostra que, em 2016 os brasileiros ficam, em média, 4 horas e 48 minutos por dia no celular. É a média mais alta do mundo! A China aparece em segundo lugar com 03h e 03min e os Estados Unidos em terceiro com 2h e 37 min. Segundo a pesquisa, o tempo médio de uso do celular pelos brasileiros dobrou em 4 anos. Em 2012 a média diária era inferior a 2 horas.

O Instituto de Psiquiatria da UFRJ desenvolveu um questionário que ajuda a identificar se você esta apresentando caso de dependência do aparelho celular. Se você tiver interesse em saber mais sobre isso, pode acessar o link do questionário e verificar o resultado: https://duduguedes.typeform.com/to/hmOhHX

Eu mesma respondi as questões e, mesmo tendo uma série de regras para o uso do aparelho, recebi o seguinte resultado: “Você apresenta sinais de uma possível dependência do TC em nível leve. Começa a ter problemas ocasionais devido ao uso abusivo do TC em certas situações. Pode vir a apresentar impacto na sua vida por ficar utilizando o TC com maior frequência do que o necessário. Fique atento para que o uso abusivo do TC não traga prejuízos para a sua vida.”

Segundo pesquisas realizadas pela Sociedade Canadense de Pediatria e pela Academia Americana de Pediatria diversos problemas podem ser causados quando crianças menores de 12 anos usam o celular excessivamente. Como o cérebro da criança ainda esta em desenvolvimento, podem ser desencadeados problemas de desenvolvimento cerebral, déficit de atenção, atrasos no aprendizado e problemas ligados a obesidade infantil (para saber mais: http://www.dm.com.br/ciencia/2017/10/pesquisas-apontam-consequencias-do-uso-excessivo-de-eletronicos-por-criancas.html).

Diante de tantos dados e tantas comprovações de problemas causados pelo uso excessivo do aparelho celular, não só por crianças, mas também por adultos, passei a refletir o quanto estamos fazendo coisas simplesmente para acalmar nossa mente e aliviar nosso cansaço em determinados momentos do dia e isso acaba se tornando um hábito.

Estamos tão envolvidos com a tecnologia que perdemos a habilidade de conexão com o outro. Quer ver? Vá a um restaurante em um final de semana... você encontrará inúmeras mesas com famílias reunidas, cada uma com seus smartphones na mão. Refeições inteiras sem uma troca de palavras entre as pessoas presentes na mesa.

Você esta em uma roda de amigos. Um deles esta contando algo quando, de repente, seu telefone vibra avisando que chegou uma mensagem. Pronto, naquele pequeno espaço de tempo você se desconectou da conversa.

Você esta trabalhando em algo importante, que exige foco e concentração. Telefone em cima da mesa. A tela do celular acende avisando que chegou uma mensagem. Rapidamente você dá uma olhadinha, só para ver de quem é a mensagem. Pronto, desconectou. Enviamos comandos de falta de concentração ao nosso cérebro o tempo todo. E quando precisamos que ele nos ajude a ter foco ele já não sabe mais o que é isso. Porque estamos treinando ele para ter breves interrupções cotidianamente.

Vamos dormir, o último ato antes de fechar os olhos e dar uma olhadinha nas mensagens e redes sociais. Acordamos, o primeiro ato depois de abrir os olhos é olhar mensagens e redes sociais. A urgência de conferir mensagens e acessar redes sociais tem afetado diretamente o cérebro humano. Ao escutar o som de um alerta do telefone ou a tela acendendo recebemos uma descarga no corpo de um hormônio chamado dopamina, responsável por elevar o nosso nível de excitação, gerando uma sensação de recompensa positiva. Os receptores de dopamina são os mesmos que transmitem a sensação de prazer pela comida, sexo, droga e álcool, explica o professor de Psiquiatria da Universidade de Connecticut, David Greenfield.

Altos níveis de dopamina prejudicam comportamentos, pensamentos e nossas tomadas de decisão. Quantas pessoas já perderam a vida por escolherem dar apenas uma espiadinha no WhatsApp enquanto dirigiam seus carros?

Nosso cérebro tem uma alta capacidade de associação, visando economizar energia para nos manter vivos. Isso quer dizer que, todas as vezes que olhamos para o telefone e nada de ruim acontece em uma situação de risco, como estar dirigindo, por exemplo, somos levados a acreditar que é seguro continuar fazendo aquilo. Dessa forma, vamos gerando um reforço positivo que acaba virando um hábito.

A tecnologia é algo surreal. Avançamos em muitos aspectos, melhorando significativamente a qualidade de vida. Mas precisamos nos questionar o quanto estamos invertendo os papeis aqui. Estamos, de verdade, usando a tecnologia desses aparelhos como nossos aliados ou como nossos sabotadores?

A forma como você se relaciona com a tecnologia vai nortear a forma como seu filho irá se relacionar com ela. Lembre-se sempre que “as palavras ensinam, mas os exemplos arrastam.” Se você fica muito tempo com o telefone celular em mãos, seu filho esta observando isso. Eu sei, é possível que você dependa do telefone para trabalhar. Eu escuto isso de muitos pais. No entanto, precisamos começar a colocar limites entre nossa vida profissional e pessoal. Procure estabelecer hábitos que te levem a ter uma conexão maior com você mesma, para então conseguir se conectar com o outro. Evite olhar o smartphone logo que acorda e antes de dormir. Aqui em casa eu criei uma regra minha: só acesso internet, redes sociais e mensagens depois de no mínimo, uma hora acordada. As atividades que realizo na primeira hora do meu dia irão ditar como ele irá se desenvolver. Então, durante a minha primeira hora eu medito, escrevo, leio e, em alguns dias, realizo alguns exercícios físicos.

Estabeleça horários para olhar as redes sociais e as mensagens de WhatsApp. O ideal é que você desative as notificações, avalie se isso é possível na sua vida. Crie momentos em que seus filhos poderão mexer nos aparelhos de celular (poucos minutos se forem muito pequenos) se isso for importante para você. Eu gosto de usar um ditado popular que diz: tudo que fazemos em excesso pode ser prejudicial. Então pensa nisso. Vai ter dias que você estará muito cansada ou que precisará trabalhar um pouco mais. Talvez nesses dias seus filhos se distraiam por mais tempo com o telefone, tablete ou vídeo game. E esta tudo bem. O importante é não permitir que isso vire um hábito. As crianças sofrem os mesmos sintomas que os adultos quando estão acostumadas a ficar muito tempo diante das telinhas. Por isso, se for reduzir a quantidade de horas do uso desses aparelhos, faça progressivamente.


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